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 Gaudêncio

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AutorMensagem
João Barbosa



Mensagens : 67
Data de inscrição : 14/10/2009

MensagemAssunto: Gaudêncio   Sab Jan 02, 2010 11:54 am

Meteu a mão no aió à procura de algo para comer. Estava vazio de alimentos, só cacarecos. Revolveu mais um pouco os objetos dentro da bolsa, na esperança tola de que estivesse confuso, vendo alumínio onde tinha frutas. Tolice. Colheu só um orgânico: um pedaço de pão mofado, guardado do último que havia consumido. Empunhou-o, olhou e sentiu vontade de comer o intragável. Mordiscou-o. Viu não ser possível. As lágrimas brotaram do bucho seco.
Passou a mão nos olhos e buscou uma sombra. Recostou-se, deitando a cabeça num galho ressequido. Chão duro! As rachaduras marcavam o couro das costas. A fome embrulhava o estômago. O calor do sol turvava a vista e enjoava, fazendo a vomição subir. Que vomição? Não tinha o que vomitar.
Pensou na mulher, nos meninos, os cinco que deixara largados pelas bandas de lá. Estariam também com fome por estas horas? É provável. A dor não só desperta a animalia, pode igualmente espetar a consciência.
- Que é que fui fazer? Pôs as mãos na cabeça.
Uma crueldade sem tamanho soltar uma fêmea, carregada de moleques, num mundo em que os pênis descaíam de fraqueza. Pobrezinha da Chinfra! Devia estar engolindo o azucrim numa hora dessas. E ele a abandonara, sem precisão, sem avisar. Pobrezinha da Chinfra!
Verdade é que estava cansado daquela vida, da exploração de ser agregado, chocho, tendo que aguentar o “qui, qui, qui” daquela mulher azeda, magricela e de peitos murchos, e daqueles filhos remelentos, com vermes quase saltando à boca.
- Cabrunco!
Era muita a feiúra. Mas merecia ficar sozinha para enfrentar as hostilidades do ambiente? A dona da casa era boa, inchadona, porém não valia uma lasca da Chinfrinha. Esta tinha seus enjoos, parecia uma goteira, todavia, o amor compensava; aquela mostrava vilania e uma lubricidade que faziam desconfiar cornos ao patrão.
Sentiu saudades da mulher.
A lembrança da posição de agregado o fez tomar de desespero. Se tivesse sido mandada embora? Mendigaria, pejada dos remelosos.
- Tenho que voltar!
Sim, voltar. Não podia abandoná-la. Possuía responsabilidades de homem, a fealdade deixava de importar; ademais, podia oferecer-se a prestar alguns favores à dona da casa. Ela aceitaria. Bastava baixar o gibão e ela caía. O jeito que olhava as costas dos vaqueiros entregava a fraqueza. Teria o carinho de uma e as carnes da outra: perfeita combinação!
Obtemperou, pôs-se em pé, apertou na mão a alça do aió.
- Volto!
Deu três, quatro passos à frente, então o estômago rugiu, detendo-o: “Volta ao diabo, isso sim!” e o órgão revolveu-se em volta de si, fazendo uma espiral, um parafuso. “Volta não, que não deixo. Não viemos até aqui à toa, parvo.”.
Segurou a barriga e contorceu-se com a dor até cair, tentando segurar nos galhos, que não o seguraram por pura sequidão. A fome era por demais grande para prosseguir.
Fez-se de pé novamente, decidido a não se abater mais por fome nem por cansaço. Mas a espiral estomacal prosseguia a girar. Resolveu-se por um descanso curto antes de reconcialiar-se de vez com a velha vida. Retornou ao galho do primeiro declínio.
Deitado, o ânimo foi cessando do brilho inicial. O caminho de retorno distava mais do que o de frente; custava retornar. Depois de tanto tempo longe, impossível que o patrão ainda o quisesse. Deveria já ter arranjado outro - mesmo assim voltava.
Sem a casa ficaria difícil. Provável ter que arrastar a família para outra região. Outra viagem não aguentava; mas era o que devia ser feito, caso não conseguisse emprego lá. Então seriam seis miseráveis e não cinco. O aumento de um número na desgraça fez lembrar de uma conversa entre o patrão e um doutor que presenciara. O doutor explicava sobre um negócio de “preservação da espécie”. Não sabia o que era espécie e preservação lhe era um conceito vago e confuso, contudo, entendeu a ideia de uma maneira sua: quanto menos se lasquem, melhor. Melhor cinco desgarrados do que seis, pensou, enquanto se acendia um pouco de orgulho pela cientificidade da concepção.
Rejeitou-a depois de algum. Regressaria, mesmo que fosse para somar na tragédia. Além disso, acreditava nos próprios brios: conseguia emprego em qualquer lugar.
Entretanto… em outra casa não havia patroa como aquela. A imagem daquelas pêras murchas que Chinfra carregava no colo emergiram na cabeça. Se não tivesse a patroa seria mais insuportável que a culpa do dever ignorado. Os ramelentos também lhe fizeram visita ao pensamento. Quatro filhos e nenhum que preste! Três meninas tronchas como a mãe e um remendo de moleque fraco, buchudo, incapaz de dar um aboio sequer, dada a frouxeza da garganta. Sem aquela amante não conseguia, não.
Pobrezinha da Chinfra! Teria que bater com o mundo sozinha.
- Perdão, Chinfrinha…
Os olhos vagaram sem direção, encandeados pela luz forte que incidia, até pararem achando o pão embolorado jogado no chão, marcado levemente pelas dentadas da agonia passada. Apanhou-o e ficou a fitá-lo, absorto.
O plano primitivo ressurgiu: refazer a vida em outro lugar, obter uma mulher nova, síntese das qualidades das amadas, ter com esta filhos que lhe façam jus.
Enfiou o embolorado no aió, levantou e caminhou animado em diante. Incrível, as dores não pesam quando se anda para frente.
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Gaudêncio
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