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 Infância

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AutorMensagem
João Barbosa



Mensagens : 67
Data de inscrição : 14/10/2009

MensagemAssunto: Infância   Sab Jan 02, 2010 11:55 am

- Aqui, Firmino, venha! Chamou-o da cama.
O menino correu quase que imediatamente, compelido pela automática disposição a obedecer, cunhada na sua cabecinha desde homúnculo.
- Sim senhor, respondeu com maquinismo infantil.
O menino não compreendia muito bem a situação. O pai estatelado no leito havia dias, falando rouco, fraco, o suor rompendo das fontes. Aquele quadro não harmonizava com imagem que sempre vira do homenzarrão inabalável, forte, até medonho, às vezes.
Lembrava da briga que teve com Seu Anacleto da bodega, de como lhe surrara com tamanha facilidade, que depois de apenas alguns minutos já estava estirado no chão, com o rosto inchado e torto das pancadas. Também não fugiam à memória as vaquejadas, onde derrubava boi na unha, com um braço só. Ficava galante em cima do cavalo.
Não era como os outros pais que contavam histórias de suas aventuras; ele as realizava, de perto, sem mentiras, sem exageros, embora fizesse o filho seus próprios enfeites na imaginação, quando não estórias completas. De vez em quando perdia a distinção entre o que inventava e o que via; coisa sem importância, já que tudo podia o pai. Folgava em contá-las, sem medo de ser contestado ou desmentido, pois todos conheciam a bravura do homem. Era seu herói o pai, não havia outro. Um herói medonho.
Agora estava ali, magro, a pele frouxa, a expressão funda. Nunca tinha percebido até ali: o pai já era velho. Deveria contar com uns sessenta anos; alguns acham pouco, mas uma eternidade para o pequeno.
Jamais transparecera a idade. Os cabelos grisalhos antes indicavam somente certa fidalguia, um ar cavalheiresco. Não conhecia o cavaleiro aos modos medievais, contudo, sentia aquele ar exatamente como se fosse um. As cãs, o cavalo, o gibão; se tivesse uma espada e um escudo estaria completo. Mas o menino não sabia como era um paladino.
- Achegue! Brandiu a mão.
Encetou uma crise de tosse que demorou alguns minutos para cessar. Aquilo confundia ainda mais a cabeça do menino; como é que pode isso?
A mãe entrou no quarto a fim de ajudá-lo, mas o homem resmungou mandando-a parar de amolação. A resposta rude restituiu algum ânimo ao guri.
- Venha.
O menino voltou a se aproximar, porque tinha se afastado durante a crise. O pai pôs a cabeça dele entre as mãos, alisando carinhosamente. Por fim segurou o crânio, sem força, mas firme.
- Olhe meu filho, quando cheguei aqui eu num tinha nada, tive que conquistar tudo o que é nosso. Num deixe que ninguém roube o que é nosso. É nosso.
O menino balançou a cabeça (entre as mãos) dizendo sim, e foi dispensado.
O pai morreu em dias.
Firmino não entendia como aquele homem podia estar deitado num caixão. Como? Impossível!
Os heróis não morrem. Esperava que fosse brincadeira, ou um plano para enganar algum inimigo. Havia de se levantar, dando um susto em todos, às gaitadas de satisfação pela própria esperteza; ou ainda, quando o adversário chegasse, metendo-lhe punhaladas certas, com a faca que, certo, escondia consigo.
O velório terminou, taparam a urna, cruzou-se a cidade, enterraram o corpo. O pai não levantou. Será que persistia no plano? Continuava, claro. Firmino manteve a esperança.
Os dias passando, mas nada de volta. A demora provocou ódio, pois não era justo fazer-lhe esperar tanto. A submissão deu pausa a um pequeno orgulho que, como ensinara o pai, tinha de ser lavado. Foi buscá-lo no cemitério.
Passou por uma pequena abertura na grade, correu até o túmulo. Deu a bater com a palma no cimento:
- Pai! Pai!
Não ouvia resposta. E se ele estivesse sem ar, sufocado? Assim não dava para responder mesmo. Precisava salvar o pai!
- Já vou!
Pegou uma pedra do tamanho que pôde e arremeteu contra a tumba uma, duas, três vezes. Na terceira, o cimento se quebrou expôs o monte de ossos, onde carnes podres ainda pendiam, putrefazendo. O menino deu um grito fino e desmaiou.
Os heróis também morrem… Acabava-se a fase romântica; tomaram posse os realistas.
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