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O Ócio Produtivo
 
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 Força

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AutorMensagem
João Barbosa



Mensagens : 67
Data de inscrição : 14/10/2009

MensagemAssunto: Força   Qua Jun 23, 2010 10:52 am

- Sabe quando a gente amolece toda?
- Hum…
- É… não.
- Nenhuma vez?
Balançou a cabeça negativamente. Os olhos dele baixaram de leve, tentando, a custo, não fazer o movimento triste, manter um pouco o fingimento de inacessibilidade. Relaxou em seguida; compreendeu de súbito não poder esconder, tampouco ser proveitoso no momento. Percebendo o peso na expressão do outro, que já antes supunha vir, a frustração, o encolhimento de todas as forças masculinas que, de alguma forma, se não mais pulsavam mantinham ainda algum resquício de sua existencia, desaparecidas por completo agora, talvez por sua vista remetesse no instante somente a incapacidade, incompetencia, ela lhe pediu perdão por ter falado, levantando-se, pondo as mãos no seu rosto num gesto que pesava ainda mais no coração do homem por lhe reportar à pena. Ela se apiedava dele e era a única coisa que podia sentir. Recusou, num arranque de homem, lembrador de que as pulsões viris ainda haviam, mesmo fracas, e disse-lhe não, não se arrependa, que é assim que melhoramos. Despediram-se já com sorrisos; a profundidade dos jovens é efêmera, graças a deus.
Mas, tão rápido se sai do fundo quanto se volta, e a juventude tem coisas além de fugacidade. Voltando para casa a pergunta latejava: como fazer? Como fazê-la sentir o que precisava? Os ombros decaíram de novo, desta vez mais tranquilos, dispensados da necessidade de esconder a fraqueza de seu dono de quem quer que fosse. Que tipo de homem é esse incapaz de dar prazer a uma mulher? Um inútil, um resto.
Envergonhado da própria debilidade, pensou: como será que faziam os outros? Qual sua técnica? O amolecer feminino, a entrega fingida relutante, desfalecida sob o ímpeto do conquistador, lembrava a virilidade que não tinha. Olhou para o próprio corpo, magro, fraco, ainda mais para dentro das têmporas intelectuais, tão carregadas de raciocínios, configurações mentais bem dispostas, ou, quando não, uma bagunça de pulsações, uma embriaguez de sentidos. Vivia enfraquecido em ambos os estados; no primeiro, os mecanismos reluziam bem arranjados, mas faltava-lhes graxa; o segundo, nada mais que graxa esparramada.
Se fosse ser tal guerreiro, teria de direcionar racionalmente as moções internas. Objetando consigo que os que faziam direito não usavam o pensamento, discordou, dizendo que olhavam suas pretensões e escolhiam quando causar tamanho impacto ou não. Apesar da inconsciencia que os fazia tão bons, a razão ordenadora, firme, havia naturalmente entranhada neles. Ademais, só sabia fazer assim. Procurou uma forma de realizar as projeções mentais; nada achou. A vergonha aumentava ao passo de diminuírem as perspectivas. Plano B: se fosse ser tal guerreiro, teria de deixar-se afundar no monte de graxa. O pensamento não engloba tudo.
E quando a viu, a sós no escuro do quarto, o vazio, passou o braço, apertou-a forte contra si, agarrou o cabelo na mão e lambeu-lhe a língua entre os bafos calorentos nas orelhas, pescoço, nuca.
- Você é minha…
A única resposta foram gemidos amolecidos. Caí-lhe pelos braços entregando a fraqueza orgástica; ele puxava, emanava mais poder da fraca constituição dos membros. Acabaram aos sorrisos molhados. Sentiu-se forte; vencedor!
O caminho de volta para casa, guardador de todas as reflexões, expeliu novas dúvidas dos desesperos desvanecidos. Por baixo dos cabelos ainda assanhados e da pele avermelhada onde secava o suor, o cérebro começou a esquentar no seu trabalho; e se ela fingisse? Na conversa anterior, o pedido de desculpas, a cara de pena; piedade? As mulheres têm as capacidades para enganar o mais perspicaz dos homens. Dispõe do capricho de suas aptidões para satisfazer as próprias vontades; quando amantes, promovendo a felicidade alheia; quando pérfidas, aumentando as dores do mundo. Dissimulação por amor?
A ideia atormentava produzindo melancolia profunda. Deixou-se cair no leito desfalecido, sem sono, minguado; acordou no dia posterior ainda fraco, arrastando-se sobre os pés. Faria ele parte da pior escoria dos viventes, os que merecem pena?
- Não! Bateu forte no azulejo creme do banheiro.
Chorou.
Tentou conter as lágrimas a custo de não poder. O tremor convulso dos músculos volveu-lhe o corpo; já estava no chão. Caiu em si da própria mediocridade, no ser próprio da mediocridade universal. Olhou-se naquele estado vermiforme: fazia mesmo parte dos méritos de compaixão; chorou ainda mais. Mergulhou na angustia até novamente desfalecer, agora acordado, sem o consolo do sono.
A inaptidão para dormir, lembrou-lhe da indisponibilidade para qualquer coisa. Olhou o relógio na parede: estava atrasado para o trabalho. Levantou sob a pena de um esforço homérico: subiu do chão sem resolução, sem vigor, sem ânimo algum transpassando o peito, apenas no sentimento de escravo medroso pela vida, pressentindo as dores do castigo; mas subiu de um pulo que daria a pensar. O chefe repreenderia pela demora, sabia bem; então os instintos mais reles e humanos, a saber, os de sobrevivencia, assomaram e expressavam-se nos movimentos rápidos dos preparativos para a labuta diaria.
Contudo, não se tratava apenas das tendencias moleculares dos humanos. Sinceramente, não queria irritar o patrão. Ao chefe pertencia uma imponencia natural, que ele admirava. Na verdade, queria ser como ele, dando, às vezes, alguns impulsos de atitude em relação aos seus iguais que contrastavam com sua posição de subalterno, na ansia de galgar a mínima proximidade do seu ideal de gente, dominador de grande parte de sua psicologia. E quanto ao modelo encarnado, nem se fale: andava sempre aos seus pés, pronto e resoluto, sem perceber a contradição daquela postura: o outro nunca se submeteria a qualquer um. Os colegas acusavam-no de bajulador interesseiro, riam por suas costas e não era difícil achar o ar de escarninho nos corredores. Adulação havia; mas despercebida pelo bajulador e movida exclusivamente pelo amor àquela figura sagrada. Interesse havia; mas só nos gestos, nas palavras, nos atos do homem. Fossem ridículos seus procedimentos, as acusações careciam de fundo real, ainda que repletas de evidencia nas aparencias. - Decepcioná-lo seria…!
E foi. Começou o expediente com o peso do erro, fator contribuinte para aprofundamento da melancolia que o detinha. Por que não podia ter ficado em casa? Ao menos evitar o olhar de reprovação de seu pagador, que tanto amava? Não possuía o poder sobre a própria vida, deu na mente o segundo esclarecimento do dia.
A culpa era dele, do empregador maldito. Final de contas, não era ele o carrasco que o mantinha ali, atado na obrigação assalariada? Que diminuiria seus escassos orçamentos caso tirasse um dia para cuidar de sua inferioridade? O patrão cruzava o corredor para penetrar o escritório quando deu-lhe o terceiro clarão do dia. Apertou forte o lápis que segurava, imaginando-o arma, fantasiando a imagem da vingança: o lápis na garganta, só acertar bem o lance, o sangue espirrando em jatos finos, a morte do opressor, a liberdade! Cegou na fantasia, arfando, suando, porém sem movimento algum de realização concreta. Percebeu os olhares alheios sobre si. Retomou a calma exterior, meio encabulado. Correu ao bebedouro, engoliu dois goles d’água odiando-se a si por não transformar em ato os devaneios.
Estava cansado desta sucessão de decepções consigo. Deu de ombros. Resolveu esquecer seus estados internos e travar o restante da obrigação.
Findou o dia, saiu da firma. Ao cruzar porta, olhou em volta como se não olhasse. A tarde morria, um vento frio e cortante soprava fraco, fazendo as pessoas encolherem-se entre os braços cruzados. Não acompanhou o gesto coletivo. Ficou de pé por algum tempo, parado, como que não sabendo aonde ir - não sabia.
Três ou quatro horas passaram da saída até este momento, e todo o período passara sentado no meio-fio na calçada oposta a da firma. Tivera força ainda para atravessar a rua; um enjoo, do qual resistiam resquícios, o empurrou para o outro lado. Seu estado era deplorável. Acabou-se tudo! E o que fazer? Beber e morrer! O álcool entorpece a consciencia e a física destrói a vida. Embebedar-se e laçar o corpo na frente do primeiro caminhão. Que caminho mais havia?
Apoiou a mão na traseira de um carro próximo, a fim de levantar. Ia dar cabo das migalhas de vida que restavam. Os olhos perdidos durante o esforço acharam o patrão que saía da firma. Mas antes do fim, o troco… Já que ia, levava junto o inimigo. Sim, vingança! Ao modo dos vermes! Matar e depois morrer satisfeito do único ato de coragem da vida; um ato de covardia.
Empunhou um pedaço de paralelepípedo solto da calçada e esgueirou para trás do automóvel em que antes se apoiava. Pegava-o pelas costas; ele colocava coisas no porta-malas do carro, estava fácil. Um, dois, três… Espere. Seu rosto parecia tão cansado… É… o sujeito trabalhava deveras, lembrou o futuro homicida ao ver a expressão derrotada da futura vítima. Saía bem mais tarde que os empregados todos os dias; devia trabalhar umas catorze horas por dia; abandonar a firma por um dia? De forma alguma. Recordava as vezes em que fora ao batente doente, vezes em que o admirou ainda mais. E pra quê? De que adiantava o dinheiro a mais, se para consegui-lo chupavam-lhe a vida? Agora ele não parecia tão grandioso.
O patrão foi-se embora sem receber golpe algum. A pedra afrouxara na mão do outro. Estamos todos no mesmo barco. Neste tempo nem os grandes e fortes são senhores do seu destino.
No coração do projeto de assassino e suicida se instalou um tipo paz. Não, não a tranquilidade alimentada pela desgraça alheia, como se pode pensar imediatamente; mas era a quarta e última súbita compreensão daquele dia: não se pode nunca ver o todo. Bastou virar o olhar, girar o prisma através do qual via o chefe, para deixar de contemplar o homem fabuloso que admirava antes e vê-lo como um pobre acorrentado nas amarras do capital. Acabou-se o ódio! Qual culpa do patrão? Nenhuma! A mesma desgraça afligia a ambos. Se havia inimigo, era este mercado sujo que a todos controla. Não queria mais vingança, só libertação; libertação para os dois!
E se mudasse o prisma sobre si mesmo? Poderia ver um homem sempre em busca da nobreza, odiento da piedade dos outros; um amante da verdade, insistente no seu calço; um homem intenso, magnífico!
- Eu sou forte!
Quanto à amada, argumentos haviam tão poucos contra ela, que nem pagava desconfiar sua boa-fé. Nunca poderia ter certeza da veracidade de suas palavras. Mas ele era forte, buscaria superar-se sempre; e, de alguma forma, sabia que conseguiria.


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