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 O que diz o código

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AutorMensagem
João Barbosa



Mensagens : 67
Data de inscrição : 14/10/2009

MensagemAssunto: O que diz o código   Seg Out 26, 2009 11:31 am

O que diz o código

O rei gabava-se de sua riqueza e justiça. Seus domínios eram regidos sob mão de ferro, pelo cumprimento de leis pertencentes a tempos imemoriais; ele sempre lembrava de sua fidelidade aos antigos. Prosperava o reino, pouco para os camponeses e artesãos, mas espetacularmente para a nobreza.
Dentre os bens jactados pelo soberano, estava seu magnífico harém, portador das mais belas mulheres do país. Pobres moças, arrancadas da casa seus pais para servir aos desejos do tirano. Por vezes, mesmo esta crueldade não era de todo ruim: a maioria vinha de condições miseráveis de vida e, como concubinas, viviam bem. Vestiam das melhores roupas, comiam das melhores comidas, habitavam um belo palacete. Antes de tudo, o lugar era bastante protegido, e isso já compensava grande parte dos sofrimentos; em terra de ladrões quem tem segurança é rei. O amo não queria que ninguém, senão ele, as tocasse ou afligisse. Eunucos fortes e bem treinados guardavam o edifício diuturnamente.
Contudo, era impossível cobrir as dores com banquetes, vestidos e abrigo. A saudade da família apertava, a falta de liberdade sufocava. O monarca, claro, não era capaz e muito menos queria suprir sua necessidades afetivas e carnais. Como medir o peso dessas carências? Morgavam, esperando que algum dia parecesse um príncipe, qualquer que fosse, para libertá-las daquele cativeiro.
Abodás presenciava o sofrimento das mulheres comovido. Sentia bem as aflições humanas; somente os sofredores conhecem a fundo o padecimento de nossa raça. Quanto já não tinha sofrido aquele rapaz? Castrado para servir de guarda, achava-se numa situação semelhante à delas: os sonhos ceifados por causa dos outros.
Não se importaria, caso não tivesse vontades de homem. A carreira militar era a melhor forma de se içar um rapaz da pobreza; por isso permitiram seus pais que lhe fosse imposto castigo tão duro. Era o preço a pagar, não tinha outro jeito.
Vendo nelas traumas tão parecidos aos seus, apaixonou-se perdidamente. O sentimento recebeu reciprocidade de imediato; não há maior união que a dos desgraçados. Junto com suas companheiras, aprendeu que há só uma forma de amar…
Foi descoberto o caso. Abodás entregou-se espontaneamente ao julgamento.
- Fuja, meu amor - diziam as concubinas.
- Não vou me entregar. Tenham bom ânimo, que luto por nós.
O povo conhecia bem o castigo para aqueles que se atrevessem a tocar as mulheres do rei. Já mais de um recebera a punição, que alguns consideravam pior que a morte: a castração. O procedimento jurídico, mesmo a aplicação da pena, acontecia em público; um dos entretenimentos horrendos da gentalha, rica e pobre.
Assim como seus súditos, o senhor daquelas terras tinha sanguinolência de chacal. Ansiava por ver o sofrimento alheio e ficava pouco ofendido com o ato contra suas posses, pois a vingança compensava os ferimentos no orgulho.
Reuniu-se a cidade para ver o julgamento. Todos se divertiam, dos mais ricos aos famintos, alegres e um pouco ansiosos pelo ponto máximo daquele estranho, mas não inusitado, festival. Só o copeiro real parecia nervoso. Tentava em vão chamar a atenção do chefe para um pequeno detalhe do processo, que aparentemente apenas ele havia percebido:
- Meu senhor! Desculpe-me a forma de falar, mas foi um erro reunir este conselho.
- Como ousas acusar-me de erro? Cale-se, insolente!
- Mas, meu senhor…
- Vá, vá!
O empregado saiu como um cão chutado, ressentido. “Que se exploda! Quem vai se dar mal é ele mesmo… Quem manda ser burro?”.
Abodás chegou resoluto frente a seus acusadores. Lutaria por amor, ainda que lhe custasse a vida. Há causa mais nobre para se morrer do que por amor? Além do mais, a pequena falha do código lhe dava alguma confiança.
O carrasco olhava-o dando sorrisos maliciosos, enquanto amolava o cutelo. Na verdade, todos zombavam dele. A fidalguia, reservando-se ao escárnio de seus bons modos; os pobres, mais agressivos, arremessando contra eles legumes que provavelmente fariam falta na hora do jantar, apesar de não ter motivo para agredir o rapaz. O rei começou:
- Você já sabe qual a punição para aqueles que violam as minhas mulheres?
- Sim.
- Então, não preciso dizer mais nada. Soldados peguem-no!
Os soldados o agarraram pelos braços e puxaram-no para a punição. A essa altura o riso do carrasco já era audível. Abodás gritou:
- Como cumprirá o castigo? Não sabe que sou eunuco?
Um silêncio tomou as bocas do geral. Verdade… O desgraçado era capado! Como se puniria? As faces do rei coraram um pouco; o copeiro gargalhava por dentro.
- Então… matem-no! - bradou o monarca.
- Que arbitrariedade é essa? - berrou Abodás enquanto os soldados o empurravam para o verdugo. Esqueceu o que dizem os antigos? Meu castigo é só um. Não pode penalizar-me de outra forma a não ser a castração. É a lei!
O povo voltou-se para seu senhor. Aquele que ufanava de seu compromisso com os ancestrais os traía em suas ordens? Os murmúrios começaram, e foram aumentando até virarem gritos; os gritos tornaram-se bofetes e a confusão se instalou.
Aqueles de espírito mais anárquico arremeteram com o que tinham nas mãos por sobre a nobreza. O próprio rei levou uma paulada nas fuças, que lhe rompeu o nariz em sangue. A infantaria levou algumas horas para conter o tumulto.
Abodás olhava tudo pasmado. Transformara-se no líder de uma rebelião sem querer.
A revolta não acabou com a repressão inicial. A fome dos mais conscientes levantou os bagunceiros na luta em prol da vida de Abodás (e de suas próprias), que nesse tempo estava preso espontaneamente, pois poderia muito bem ter escapado nos barulhos de seu julgamento. O povo exigia a libertação imediata do eunuco, mas a realeza negava.
- Senhor, temos de libertá-lo - instavam os conselheiros. Enquanto estiver preso, o povo não vai acalmar.
- Que não acalme! Matarei a todos se for preciso. Não vou sair humilhado.
Os nobres não gostaram da atitude do soberano. Ia acabar com o reino por causa de um reles guarda de harém? As pretensões de poder de alguns se acenderam; era o momento perfeito para um golpe.
O povo continuava com o motim. O exército não conseguia mais suprimir o levante e, com o alto suborno que a fidalguia pagou a determinados generais, nem tinha a intenção.
No cúmulo da revolução, o castelo foi invadido, o rei, ainda com o nariz torto a paulada, recebeu muitas outras até a morte. Abodás foi solto e carregado pela multidão: o novo rei. Um fidalgo veio e colocou-lhe o manto sobre os ombros.
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